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ADEUS LIBERDADE. VIVA A LIBERDADE! / XXI, TER OPINIÃO Nº2
( 224959452)

Descrição

ADEUS LIBERDADE. VIVA A LIBERDADE! / XXI, TER OPINIÃO Nº2

2013; 208 PÁGS; 26,5 cm

Bem conservada; pequenos sinais de uso; ilustrada.

Não é raro uma cultura associar o seu mito fundador a uma derrota. E poucas derrotas terão tanto significado para a cultura ocidental como a de Termópilas, o desfiladeiro onde um punhado de gregos resistiu heroicamente ao rolo compressor do maior exército desse tempo, o do imperador persa Xerxes. Foi há quase 2500 anos e a luta determinada que os gregos então travaram, e de que acabariam por sair vitoriosos, foi associada por Heródoto, o primeiro dos historiadores, à luta pela liberdade. “Os gregos querem permanecer livres. Eles só obedecem à lei, não aos comandos de outros homens”, terá dito um emissário grego ao imperador Xerxes, cabeça de um império centralizado e despótico. O preço dessa liberdade, como se comprovou em Termópilas, era elevado, mas “os gregos amam a liberdade sob a lei e vão combater por ela”, como disse o mesmo emissário. Cinquenta anos depois, um outro historiador, Tucídides, colocaria na boca de Péricles, o líder de Atenas no seu século de glória, o elogio do governo da “coisa pública em liberdade”. Na oração fúnebre aos soldados que haviam morrido pela sua cidade, elogiou os que, “graças ao seu esforço”, haviam legado à posteridade aquelas terras “livres”. E foi mais longe. Disse que “felicidade é liberdade e liberdade é coragem”, o que faz com que não se hesite mesmo “perante os perigos da guerra”. É nestas raízes antigas que o Ocidente funda a sua tradição de Liberdade. Tal como a funda na sua expressão moderna que foi formalizada pela primeira vez na Declaração de Independência dos Estados Unidos, onde se invocam os “direitos inalienáveis, entre os quais se contam a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”. Nem sempre foram fáceis ou lineares os caminhos da liberdade. A luta foi mesmo terrível no “curto século XX”, esse período que vai de 1917 a 1989 e testemunhou o combate mortal entre os defensores da liberdade e os diferentes totalitarismos, de direita e de esquerda. Mas quando, no final desse ano mágico de 1989, o mundo assistiu incrédulo à festa da demolição do Muro de Berlim, muitos pensaram que a última batalha tinha sido travada e que um tempo novo, em liberdade, se abria para toda a humanidade. Duas décadas depois, o céu encheu-se de novo de nuvens, algumas bem negras. Não são poucos os países que regrediram e não faltam exemplos de limitações à liberdade de expressão, da Rússia de Putin – de que o exemplo mais gritante é a condenação das Pussy Riot – à Argentina de Kirchner – onde a presidente tudo tem feito para calar o jornal Clarín. Até a esperança que a Primavera Árabe acendeu dá sinais de desfalecimento face à dificuldade em equilibrar as ambições da maioria muçulmana com a preservação dos direitos dos cidadãos. Ao mesmo tempo, numa Europa atormentada por uma crise derivada dos elevados níveis de endividamento de alguns dos seus países, reapareceram fantasmas antigos. Mesmo assim, Carlos Gaspar considera, no artigo que abre a primeira parte desta revista, toda ela dedicada ao tema da Liberdade, que apesar de o crash financeiro de 2008 ter sido de alguma forma o contraponto à queda do Muro de Berlim – com tudo o que isso significa –, a democracia não cedeu. Ou pelo menos ainda não cedeu. E falta saber até onde está viva e de saúde. Alguns dos textos desta edição abordam por isso um outro tema muito delicado, e que é a nossa doença actual: podemos realmente falar de democracia quando países como Portugal perderam a liberdade para decidirem as suas políticas domésticas? Esse é o ponto de partida de José Félix Ribeiro, mas é também o pano de fundo de dois textos que defendem posições opostas relativamente ao futuro do euro, os de João Ferreira do Amaral e de António Borges. Estes textos ajudam-nos a pensar melhor sobre alguns dos grandes debates que atravessam a nossa sociedade. Informam a nossa opinião e mostram-nos como não há escolhas fáceis. Basta pensarmos num exemplo simples, bem presente na nossa memória: o do slogan das manifestações de 15 de Setembro. “Devolvam-nos as nossas vidas”, gritaram muitos milhares e milhares de pessoas, e é impossível deixar de identificar nesse grito uma reivindicação pela mais elementar das liberdades, a decidirmos o nosso devir. Junto vinha outro grito: “Que se lixe a troika!” Sim, percebe-se, mas faltava qualquer coisa: saber como recuperaríamos essa desejada liberdade sem, ao mesmo tempo, dependermos dos empréstimos garantidos pela troika. Sim, “estamos zangados”, como escreve José Tavares. Sim, “sentimo-nos súbditos, inanimados e desanimados”. E sim, “a cólera pública, nas sociedades da abundância, tem o benefício de quebrar o tédio e atenuar o mal-estar das multidões solitárias”. Mas, e depois? A verdade é que, como também nota o mesmo autor, a “cólera é mais eficaz a prenunciar a liberdade do que a garantir a prosperidade e o conforto”. O que talvez nos deva fazer regressar às origens, às raízes da paixão ocidental pela liberdade. E lembrarmo-nos que liberdade não rima quase nunca com segurança, e rima pouco com comodidade. Tal como por vezes não vai com justiça ou com igualdade. É também por isso que pode haver muitos significados para “ter a nossa vida de volta”, pois a busca da felicidade é necessariamente um caminho individual. Se não é concebível felicidade sem liberdade, também é verdade que essa liberdade chega por regra com esforço, porventura sacrifício. Como já notava Péricles.

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Não é raro uma cultura associar o seu mito fundador a uma derrota. E poucas derrotas terão tanto significado para a cultura ocidental como a de Termópilas, o desfiladeiro onde um punhado de gregos resistiu heroicamente ao rolo compressor do maior exército desse tempo, o do imperador persa Xerxes. Foi há quase 2500 anos e a luta determinada que os gregos então travaram, e de que acabariam por sair vitoriosos, foi associada por Heródoto, o primeiro dos historiadores, à luta pela liberdade. “Os gregos querem permanecer livres. Eles só obedecem à lei, não aos comandos de outros homens”, terá dito um emissário grego ao imperador Xerxes, cabeça de um império centralizado e despótico. O preço dessa liberdade, como se comprovou em Termópilas, era elevado, mas “os gregos amam a liberdade sob a lei e vão combater por ela”, como disse o mesmo emissário. Cinquenta anos depois, um outro historiador, Tucídides, colocaria na boca de Péricles, o líder de Atenas no seu século de glória, o elogio do governo da “coisa pública em liberdade”. Na oração fúnebre aos soldados que haviam morrido pela sua cidade, elogiou os que, “graças ao seu esforço”, haviam legado à posteridade aquelas terras “livres”. E foi mais longe. Disse que “felicidade é liberdade e liberdade é coragem”, o que faz com que não se hesite mesmo “perante os perigos da guerra”. É nestas raízes antigas que o Ocidente funda a sua tradição de Liberdade. Tal como a funda na sua expressão moderna que foi formalizada pela primeira vez na Declaração de Independência dos Estados Unidos, onde se invocam os “direitos inalienáveis, entre os quais se contam a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”. Nem sempre foram fáceis ou lineares os caminhos da liberdade. A luta foi mesmo terrível no “curto século XX”, esse período que vai de 1917 a 1989 e testemunhou o combate mortal entre os defensores da liberdade e os diferentes totalitarismos, de direita e de esquerda. Mas quando, no final desse ano mágico de 1989, o mundo assistiu incrédulo à festa da demolição do Muro de Berlim, muitos pensaram que a última batalha tinha sido travada e que um tempo novo, em liberdade, se abria para toda a humanidade. Duas décadas depois, o céu encheu-se de novo de nuvens, algumas bem negras. Não são poucos os países que regrediram e não faltam exemplos de limitações à liberdade de expressão, da Rússia de Putin – de que o exemplo mais gritante é a condenação das Pussy Riot – à Argentina de Kirchner – onde a presidente tudo tem feito para calar o jornal Clarín. Até a esperança que a Primavera Árabe acendeu dá sinais de desfalecimento face à dificuldade em equilibrar as ambições da maioria muçulmana com a preservação dos direitos dos cidadãos. Ao mesmo tempo, numa Europa atormentada por uma crise derivada dos elevados níveis de endividamento de alguns dos seus países, reapareceram fantasmas antigos. Mesmo assim, Carlos Gaspar considera, no artigo que abre a primeira parte desta revista, toda ela dedicada ao tema da Liberdade, que apesar de o crash financeiro de 2008 ter sido de alguma forma o contraponto à queda do Muro de Berlim – com tudo o que isso significa –, a democracia não cedeu. Ou pelo menos ainda não cedeu. E falta saber até onde está viva e de saúde. Alguns dos textos desta edição abordam por isso um outro tema muito delicado, e que é a nossa doença actual: podemos realmente falar de democracia quando países como Portugal perderam a liberdade para decidirem as suas políticas domésticas? Esse é o ponto de partida de José Félix Ribeiro, mas é também o pano de fundo de dois textos que defendem posições opostas relativamente ao futuro do euro, os de João Ferreira do Amaral e de António Borges. Estes textos ajudam-nos a pensar melhor sobre alguns dos grandes debates que atravessam a nossa sociedade. Informam a nossa opinião e mostram-nos como não há escolhas fáceis. Basta pensarmos num exemplo simples, bem presente na nossa memória: o do slogan das manifestações de 15 de Setembro. “Devolvam-nos as nossas vidas”, gritaram muitos milhares e milhares de pessoas, e é impossível deixar de identificar nesse grito uma reivindicação pela mais elementar das liberdades, a decidirmos o nosso devir. Junto vinha outro grito: “Que se lixe a troika!” Sim, percebe-se, mas faltava qualquer coisa: saber como recuperaríamos essa desejada liberdade sem, ao mesmo tempo, dependermos dos empréstimos garantidos pela troika. Sim, “estamos zangados”, como escreve José Tavares. Sim, “sentimo-nos súbditos, inanimados e desanimados”. E sim, “a cólera pública, nas sociedades da abundância, tem o benefício de quebrar o tédio e atenuar o mal-estar das multidões solitárias”. Mas, e depois? A verdade é que, como também nota o mesmo autor, a “cólera é mais eficaz a prenunciar a liberdade do que a garantir a prosperidade e o conforto”. O que talvez nos deva fazer regressar às origens, às raízes da paixão ocidental pela liberdade. E lembrarmo-nos que liberdade não rima quase nunca com segurança, e rima pouco com comodidade. Tal como por vezes não vai com justiça ou com igualdade. É também por isso que pode haver muitos significados para “ter a nossa vida de volta”, pois a busca da felicidade é necessariamente um caminho individual. Se não é concebível felicidade sem liberdade, também é verdade que essa liberdade chega por regra com esforço, porventura sacrifício. Como já notava Péricles.

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